quarta-feira, 20 de setembro de 2017

POESIA - NOVA ROUPA - THIAGO LUCARINI

Não importa
Se o ovo, as árvores, 
A banana ou
Qualquer outra fruta
Troca a casca
Numa tentativa de melhoria
Do conteúdo.
Haverá um momento
De nudez, de vulnerabilidade,
Mas a nova roupa
Certamente será superior,
E se acaso não der certo,
Faltar comprimento, apertar,
É só voltar à pele velha 
Ou escolher estar exposto.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

POESIA - MONOTEMÁTICO - THIAGO LUCARINI

Fala da mesma coisa
Da mesma coisa fala
Falando sempre coisa mesma
Mesmíssima monotonia
Mesmerizada agonia
Morosa fala sem fuga de si
Monocórdia pobreza de alma
Coisa estagnada de domínio público
Limitada ao senso comum essencial
Fala narcisista labiríntica redundante
Mesma penitência mesma ladainha
Coisa para encher o saco dos que ouvem
Sempre a coisa mesma falada sem pausa
Pelo mesmo homem monotemático 
Sendo o mesmo chato de sempre

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

CRÔNICA - COROA FLUTUANTE - THIAGO LUCARINI

A que glória eu pertenço senão a todas e a nenhuma? Tudo é momento. Transitoriedade do estado e da ação. Posso pela manhã ser esplendor e alma e à noite rancor e destruição, assim como posso alvorecer escuro e tempestuoso e anoitecer límpidas estrelas fixas. Não importam os muros ou as janelas abertas, o caminho segue independente do atalho ou da árdua escalada. Cabe ao eu indivisível, porém mutável ir de alguma forma, ir além das cercas. Olho ao alto esperando halo, baixo ao chão contando os crescentes calos, vendo se estes me elevam à flutuante coroa almejada. Corro do abismo sendo eu igual buraco fundo e inapagável, algumas flores na borda ainda não me fazem jardim, as palavras vão fluindo, são corvos sem pouso escorrendo na vã tentativa de saciar a fome do imperativo vazio que de mim se origina. Sublime negativo, aqui na minha prisão de utopia, qualquer pecado é esperado e toda santidade é vaidade, e nesta dicotomia de exposição expressiva: entre o corte da agonia do espelho e a distorcida estética interna dos meus prazeres inefáveis, busco auréola, glória única, sem ferrugem ou marcas dos dedos gordurosos da morte e, sobretudo, sem fluidez no tempo.

domingo, 17 de setembro de 2017

POESIA - DELIRIUM - THIAGO LUCARINI

Imperdoável é o coração que não ama,
Pois no amor tudo se renova.
O amor vivifica até mesmo 
A mais cansada das almas. 
Quero meu fadário de amor irrevogável.
Porta do Céu, graxa do Paraíso,
Amantes eternos embebidos
No delírio febril e cativo
Do rio vermelho das chamas
Que aquecem o coração imortal
Dos apaixonados em conjunção.
Querido amor verdadeiro
Vamos fazer um acordo 
Cedo o meu coração para habitá-lo
E em troca, desejo toda a felicidade
Que puder me conceder.

sábado, 16 de setembro de 2017

POESIA - LÍQUIDO REATIVO - THIAGO LUCARINI

Define-se líquido “instável” ou “líquido reativo”,
quando um líquido na sua forma pura, comercial,
como é produzido ou transportado, se polimerize
se decomponha ou se condense, violentamente,
sob condições de choque, pressão ou temperatura.
Norma Regulamentadora 20 – NR 20

Sou líquido instável, reativo
Torno-me autorreativo
Em condições de choques
Pressão ou multidões.
Preciso de inércia, raízes,
Correntes, concreto.
Não devo correr o risco
De atrito, não sei quantos
Pedaços eu serei se explodir
Ou se me reunirei sem trincados.
Sou napalm em contenção.
Por isso, covarde, permaneço
Na condição química
De estável, imóvel, morto.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

POESIA - FILHO DA MUDEZ - THIAGO LUCARINI

As palavras me calam
E no meu silêncio digo
O que é preciso sem ser.
Quando falo nada é necessário,
Minha boca é peça decorativa,
O que falo é ar sem consistência.
Vivo naquilo que está escrito,
O escrito é terra, matéria,
Solo que habito em raízes
Sou um filho da mudez.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

POESIA - A MENINA DOS ANDES - THIAGO LUCARINI

Cheia de tranças coloridas,
Pele cor de barro maduro
E um pesado vestido florido
Veio descendo a montanha
Com alegria primitiva
A menina dos Andes.
Sua descida simbólica era poesia,
A cada passo dado um dia de vida passava.
Quando chegou aos planos pés do caminho
Já era senhora e hora de subir novamente a inclinação
Só que desta vez com passos de eternidade.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

CRÔNICA - EM SINAL DE MISÉRIA - THIAGO LUCARINI

Nada do que eu falo é necessário, atribuir algum valor é me dar uma importância que não tenho. Quem sou eu na fila do pão? Na terra da poesia? Como intricado formador de opinião?
A resposta é: ninguém. Uma vez que, abuso por diversão do verbo vazio, das palavras sem sentido escondidas debaixo da unha, do oco do coração ao avesso. Se um ou dois se acham no meu discurso, são sei se rio ou padeço, já que a identificação com o criador é punição, parte da penitência de dividir o mesmo céu ou inferno. Quebro o mosaico de qualidades e vaidades que meus dedos são, para ser abstrato, e assim, desprender-me do ouro e da verdade, pois vejo nestes, atribuições subjetivas, cativas daquilo que eu creio em conjunto a adequação as regras dos alheios de mesmo grupo ou opostos. Somente diluído fujo, transgrido na minha letra tortuosa e feia, reflexo dos tantos flagelos estendidos em varal na alma feito vergonhosas meias velhas. Aqui qualquer valor semântico é migalha, centavo barato, todo elogio é esmola, e como bom mendicante, aceito em sinal de miséria só para me contradizer e não me abster totalmente do humano.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

POESIA - FIM DO SHOW - THIAGO LUCARINI

Cinco da manhã
O galo enche o peito de ar
E abre o bico para o mundo
Sem saber que seu canto é inútil.
A tecnologia proveu ao homem
Galináceos de ferro, despertadores
Feitos de mecânica poesia rotineira.
Cabe ao galo ser canja e insistência,
Pois é um artista que não se deu conta
Que o seu show há muito terminou

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

POESIA - LARVAS À MESA - THIAGO LUCARINI

Sobre a cabeça empalada
O corvo busca gordas larvas
Nascidas dos pensamentos

A tanto apodrecidos e idos.
Bica o corvo o buraco do olho,
A cavidade do nariz caído,

Lambe em último recurso
A cera do ouvido entupido.
Atrás do tímpano rompido

Finalmente acha as larvas esperadas.
Serve-se o corvo no banquete dos condenados,
A praga imposta pelas mãos dos carrascos.

De barriga cheia e pesada
Voa alto o corvo satisfeito,
Mas logo voltará à mesa.

POESIA - FARPAS - THIAGO LUCARINI

As farpas adoram carne.
Amam nela se enfiarem, e ali, infeccionarem.

Clamam por pele macia,
Calam embaladas na dor

Daqueles que lhe cedem
Caloroso abrigo e sangue à vida.

Quietinhas e dolentes oram ao pus feito larvas
Para que não sejam extirpadas por fina agulha.  

POESIA - ABRAÇO DE NOITE - THIAGO LUCARINI

Não recuse
Meu abraço de noite.

Nele posso te oferecer
Cometas, planetas, estrelas.

Na minha sensível escuridão
Posso te dar constelações inteiras.

Em troca desejo apenas as cerejas
E a luz do teu sorriso, combustível.

domingo, 10 de setembro de 2017

POESIA - FAREWELL AND BLESSED BE - THIAGO LUCARINI

Vejo tão somente as costas com mochila
Se afastando pela tarde do caminho sinuoso.
Os passos quedam cada vez mais distantes
Da boca sem flores do caminho onde estou.

Lá se vai um amigo de uma vida inteira.
Guarda-chuva em mãos o horizonte promete
Chuva derradeira e demorada, não tarda,
Os pingos molham a terra cansada de tantas idas.

Não me lembro de abrir o guarda-chuva em nenhum lugar,
Pois há chuvas diferentes num mesmo espaço. O amigo
Não passa de um borrão. Não há certeza de reencontro.
Percebo que é hora de voltar à mesmice das horas,

Os caminhos mudam o tempo todo, quando eu sair 
Desta estrada, ela já não será a mesma da despedida.
Permanece a lembrança dos sorrisos, dos tempos de alegria.
Adeus e abençoado seja, meu amigo. Abro o guarda-chuva

A sombra projetada sobre mim seguira comigo
Muito após fechado o objeto. Abafam-se os sons dos pingos,
Devagarzinho o silêncio ganha predomínio, surgem algumas estrelas em promessa.
Vou-me pela senda, sozinho, barro nos pés, saudade peito, repetindo:

Adeus e abençoado seja,
Amizade cumprida em votos.
Adeus e abençoado seja,
A família que escolhemos ser.

sábado, 9 de setembro de 2017

CRÔNICA - OS MUROS - THIAGO LUCARINI

Apesar das depressões geológicas e emocionais os muros vão naturalmente germinando, brotando em sua dura linearidade, blindando o horizonte dos olhos traiçoeiros e enxeridos, prendendo os inocentes, velando a vida das casas ao podar suas asas. Inflexíveis e altos os muros são protetores estáticos do patrimônio, da integridade e da moral, guardam seus donos do mal-intento, florescendo seus sorrisos secos de cinza concreto indiferente.  Tijolo por tijolo, medo por medo, internamente estas construções de força têm a mesma função, vão sedimentando-se com razão de resguarde e proteção, porém acabam por ser limitantes das ações, bloqueadores do contato, impedimento para novas flores. Defesa absoluta é solidão. Além da retidão impecável, os muros formam mosaicos irregulares distorcendo a imagem, dando a vista ares de prisão. Em terror, não sabemos se quando os muros caírem será libertação ou condenação.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

POESIA - PROSTITUIÇÃO (TEMPLO DO ASNO) - THIAGO LUCARINI

Os porcos espojando-se nas poças
Da virgindade reduzida à lama!
Augusto dos Anjos

A carne virginal entregue em parcelas de prazer
Flor e falo devassados, comidos pelo pecado.
Este corpo de sexo não pousará em santo adro,
Arrombado pela podridão perecerá em cela.

De amargas seivas, caldos e fluidos de orgasmo
Nutrem-se os subversivos. A prostituição arranca
As asas liriais dos sonhos da moça antes santa,
Vermes saem do corpo profano, templo do asno. 

Sêmen preto deita no baixo ventre como piche
Embebendo a sarça ardente da Vênus e seu fetiche.
Sobre lambuzados corpos em danação pousam moscas

A devorar-lhes o pudor, pondo ovos nos teus orifícios.
Larvas gordas eclodem comendo em deleitoso ofício
Os putos gozados, estes sem o real gozo da não vendida alegria.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

CRÔNICA - QUESTIONAMENTO DA FÉ - THIAGO LUCARINI

Que fique claro: a fé não se questiona, as fôrmas, sim. Estas palavras não têm qualquer intencionalidade de movimento ao proselitismo ou habilitação da descrença aos alheios. Quando Deus expulsou o homem do Éden este caiu em desgraça, pois se afastou da graça direta de estar sob as asas do amor do Criador, mesmo vagando pela Terra, longe do sagrado jardim, continuou o homem ante aos olhos do Pai. Não como Adão e Eva, mas igualmente vi-me longe do seio da igreja por discordar de ideologias impostas por homens de pensamentos duvidosos, devido a isso, ainda hoje questiono minha fé e seu cansaço rotineiro, quase desisti de acreditar em algo sagrado, inorganicamente além do humano, aceitar que apenas um ser sobrenatural maior possa me fornecer a Salvação mediante regramento e devoção. Condenei-me por não estar em similitude de pensamento, por questionar a normativa política e moral da religião que bebi ainda no berço e negar-me a barganhar o Paraíso. Cristo é o caminho e a conduta! Porém há, de fato, um único templo detentor deste caminho de incoesões e várias ramificações? Qual religião leva aos tijolinhos dourados dos portões da vida eterna? Qual o interesse da religião sobre o homem além da remissão? É mesmo tudo culpa da carne por ser fraca e falha? Livre-arbítrio não seria apenas mais um cavalo de Troia? Não existe uma distração saudável pelo trajeto, uma que não seja obra do diabo? A inflexibilidade dogmática não seria uma característica muito mais humana que divina? O mal não seria apenas uma força opositora, decompositora da vida em exercício, um moldador e parâmetro ideal do caráter humano para o que é bom? Não creio que a dor santifica, ou seja, meio para propósito. Aceito que excluídos são os maiores merecedores do Altíssimo. São muitos os questionamentos e quase exatas afirmações. Não sou cético, nem quero ser. Só desejo uma crença longe de charlatanismo e golpes contra a ingenuidade, um algo puro, real manifestação do divino através do humano, distante do culto de tolos. Cegueira absoluta não é fé, é doença. Não darei santidade a homens de barro e ouro, não enriquecerei seus tempos falhos. Minha alma não é moeda de uso para qualquer um, nem alegre atalho para metas alheias. O Céu é um investimento, no qual, posso trabalhar por conta própria e colher seus rendimentos. A comunhão exigida é um ato para ser cumprido muito além das paredes sólidas de uma abstrata comunidade religiosa. A ovelha perdida nem sempre precisa do direcionamento da vara do pastor para voltar a casa. Sei plenamente que não posso alcançar a Deus sozinho, por isso, para mim, há Cristo Jesus e seus gratuitos ensinamentos deixados, para outros, livres em direito, existe outro Salvador escolhido, não menos santo.  Estou longe do seio de mastite de alguns templos, me chamam de pecador, abominável ciente, mas esta é outra forma de ridicularizar, menosprezar aquilo que não se pode combater. Ninguém abaixo do firmamento é capaz de dar salvação ou condenação a outro homem, este é o papel supremo do Senhor.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CRÔNICA - QUADRO BRANCO - THIAGO LUCARINI

Um dia este corpo não será e neste não sendo virará vazio e cada palavra até ali nele depositada não terá mais significado algum, pois igualmente beberão do vazio do corpo ido. Desta forma, depositar palavras na conta do eu é investimento apenas para a vida, uma vez que a morte desonera a moeda semântica. Qualquer simbolismo se vai ao cerrar dos olhos, pois todo morto é desprovido até mesmo do nome, pois se a lápide bondosamente não segurar “aqui jaz, fulano” este escorrerá para um além feito de nada e o morto abandonado por suas letras floreadas será um algo sem qualquer ligação de signo.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

CRÔNICA - O MONTE OLIMPO DA CAMA - THIAGO LUCARINI

Os lençóis são a cobertura natural e rasteira do relevo que habito durante a noite. A cama é o Monte Olimpo onde sou deus único de escolhas amarrotadas ou totalmente avessas, ali, sou senhor do sexo, do sono, da criatividade e cada gota do meu gozo derramado é novo mar de amplos horizontes. Aos louros da glória a nudez de absolvição, a cama é palco para espetáculo do corpo, é ponte para momentos de imortalidade terrena seja na sutil batalha do prazer ao descanso de reparação dos sonhos em êxtase, faço assim, orgias criativas para a servidão do povo.

domingo, 3 de setembro de 2017

CRÔNICA - TERMINAL DE NÓS - THIAGO LUCARINI

Na parada, à espera, observo aqueles cotidianamente iguais atados à hora símile, mesmo uniforme, mesma expectativa de aguardo. Dependendo da graça maior, logo o ônibus chega, embarcamos rumo a lugares diferentes, porém com um pedaço de trajeto semelhante, estrada da vida. Dentro do veículo de inseguranças e desconforto noto outros rotineiros indo para onde não sei, mas que subversivamente imagino. Dou nomes, vidas completas, penso que sonham apesar da indiferença que mutuamente cultivamos, são desconhecidos quase afetivos apesar de nenhuma palavra trocada, só empurrão e odores, muitos odores: mijo, merda, fumo, ranço, cachaça, bafo, perfume barato, são estes puros aspectos da sinceridade humana enlatada as seis da manhã, meras agressões simbólicas.  Sem janelas abertas sem iluminação cresce a claustrofobia das emoções amanhecidas, repulsa e simpatia, desolação. Pedante caminho, sono, desgaste antes do abate da labuta, presa, prensa de carne, tantos pedindo aos gritos, outros mudos, nenhum ganhando. Somos mundos em forçado choque de aceitação pela necessidade. Sentados estão os mais espertos e cansados, os primeiros do ato de embarque, ficam de pé aqueles sem oportunidade, operários, sustentação da parede interna da barriga deste rastejante verme público. No lúdico otimista o ônibus longe do asco é semente carente de sacolejo e aperto, se porventura, algum broto some, pergunto-me se este se mudou, perdeu o horário ou apenas contrariou a casca de ferro e germinou transporte próprio. Com a vaga aberta surge outro alheio das sombras, somos todos suspeitos, e fica a dúvida se este será mais um repetitivo sujeito sem expressão ou ladrão extrativista do quinto salarial ou celulares da lotação. Sigo jornada diária, a vida adiante da janela é cheia de promessas vazias. Ali, faço amigos que nunca me conhecerão, desejo alguns, tenho nojo de outros e sinto falta de tantos, vamos indo todos embalados ao terminal de nós, estação final da viagem, mas não do eu, pois este só se encerrará na lápide. Além das imaginárias ligações estabelecidas, cada parada é sonho de descida, sonho de ninguém à subida, todavia a boca do ônibus tem fome contínua, sua barriga jamais está suficientemente cheia mesmo transbordando. Ao desembarcar, de tudo esqueço, na manhã seguinte é recomeço, refaço tudo outra vez acalentando a fé de não ser digerido eternamente por este verme ou de ser milagroso rebento em fuga. Cíclico.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

CRÔNICA - CASA CINZA - THIAGO LUCARINI

Não tire minha tristeza. Não exija que eu seja mais um destes tantos holográficos felizes incorruptíveis de sorrisos plásticos escancarados, conceda-me a sinceridade de ser o que sou. Minha melancolia é inspirativa, é dedo na ferida, é dor figurada, é mais feliz que tantas alegrias forçadas. Deixe-me deitar sobre a palidez que cala no silêncio de somenos da noite pousada nas ideais insurretas, deixe-me chover, ser a destinada tempestade da madrugada, permita-me contar as lágrimas, fiá-las num rosário de penitência poética. Não anseio ser par ou ímpar, outro adorno, quero ser uno, uma criatura de singularidade invisível, porém perceptível, exatamente como o vento, e só a tristeza pode me conceder a bênção desta contrariedade. Secarei pleno neste meu esvair de devir, não se preocupe se caminho entre os mortos, se sussurro ao além, se sou noturno e choroso, se minhas páginas são lápides, se meu prazer é enterro. Prometo que não incomodo. Sou inaudível, pois meu chiar é baixo, é menos que o riscar da caneta sobre o papel áspero, só posso ser lido. Não tema, não há carência ou agouro, prefiro que fique longe, a sete palmos horizontais com possível dó e compaixão ou oferta de felicidade. Nunca se atreva a querer quebrar minhas correntes ou a espantar meus fantasmas que com esmero foram cultivados. Sou triste e não miserável. Sei que um dia hei de sucumbir à melancolia e o farei grato, e neste momento final, a escolha de toda uma vida ditará o resultado, não sei se acharei condenação ou céu, mas certamente, ambos terão tons de cinza sem dor, pois ante minha presença em carne ou alma tudo desbota, faço desta forma de qualquer espaço, casa.