terça-feira, 3 de janeiro de 2017

CONTO: BORBULHA - THIAGO LUCARINI



            O ano do surgimento não é preciso, mas os casos de Borbulha datam de longínquos 200 anos atrás. Pregressamente, ninguém sabe como este inseto começou a disseminar tal doença, se foi uma mutação natural, uma arma biotecnológica, ou uma espécie vinda de outro planeta. O fato é que hoje, o indesejado, infesta a Terra inteira.
            Fenotipicamente, o Borbulha se assemelha aos carrapatos, porém seu dorso é repleto de pequeninas bolhas amareladas (fator que lhe deu o nome), repletas de um líquido estranho, onde reside o vetor patógeno, ainda desconhecido, responsável pela infecção no homem. Seus hábitos de vida não são excepcionais, é um ser noturno, que se alimenta exclusivamente de sangue humano. Porém sua reprodução é de uma velocidade absurda, além de ser imune a todos os venenos conhecidos. O bicho só morre por ação mecânica. Uma curiosidade é que outras espécies de animais não são contaminadas pelo vetor do Borbulha. 
A contaminação não se dá pela picada do inseto ao se alimentar, mas pelo esmagamento involuntário: seja dando um tapa automático, rolando sobre, o indesejado, durante à noite, pisando ou esbarrando. O líquido das bolhas do Borbulha ao entrar em contato com a pele humana, infecta seu portador imediatamente, não adianta, aqui, lavar, ir para o hospital tomar vacinas (uma vez que, estas não existem), passar álcool. O vetor maligno cumpre seu ciclo destrutivo.
Em apenas 6 horas há um rápido alastramento pela região entorno da área infectada, com uma prolongação de 5 a 15 centímetros da origem do contato inicial.  Inúmeras erupções cutâneas granulomatosas, de um profundo tom amarelo-esverdeado se espalham, logo os grânulos começam a se enxerem de exsudato das células em deterioração; líquido que é altamente reativo ao corpo humano e contagioso, as bolhas formadas não devem ser estouradas, para não haver disseminação da infecção, o que não é nada fácil, assim como na catapora, as bolhas coçam absurdamente, tendo, geralmente, as vítimas do Borbulha, que serem amarradas à cama para evitar a ruptura por trauma mecânico dos grânulos edemaciados e doloridos.
Quando, enfim, as bolhas estouram pelo processo natural do vetor, 24 horas depois, surgem em seu lugar feridas oblongas e perfeitamente hexagonais, que lembram o aspecto do interior de uma romã, da qual, se debulhou as sementes, ou a de um purulento e doentio favo de mel. Bizarramente, os milímetros de pele que separam um buraco do outro se mantêm rigidamente de pé, dando a pele esburacada um efeito grotesco, difícil de se olhar. 
A seguir as feridas abertas do Borbulha exalam um fedor nauseabundo, insuportavelmente desagradável, é neste estágio, que se pode começar o sofrível tratamento testado até então, que consiste em deixar a parte do corpo ou membro infectado (mais comuns: pés e mãos, sendo a cabeça a mais árdua de se tratar),  mergulhado numa solução de 70% hipoclorito de sódio líquido, 25% de álcool, 5% de soda cáustica mais 3 gotas de limão siciliano, por cinco minutos, a cada hora, por 3 dias seguidos, e sem quebra do ciclo. Não me perguntem como descobriram isso.
É relatado que a dor tanto da infecção, quanto do tratamento são insuportáveis, muitos desmaiam em períodos regulares de ambos os momentos. Dizem que é como ter fogo líquido sobre a pele.
Feito o procedimento descrito, o vetor, transmitido pelo Borbulha acaba morrendo, deixando seu hospedeiro livre da doença, sem maiores danos, claro, dependendo da região afetada, nos olhos, por exemplo, a cegueira é resultado óbvio, no ouvido, a surdez, entre outros. Não é raro aqueles que optam por amputarem membros ou cortarem fora a área infectada pelo Borbulha, imediatamente após o contato primário.  
Agora sabendo de tudo isso, preste atenção por onde anda, olhe suas roupas de cama antes de ir dormir, e muito, mas muito cuidado com o inseto que irá matar se não estiver devidamente paramentado.           

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