sexta-feira, 30 de setembro de 2016

POESIA - OLHOS QUE CAGAM - THIAGO LUCARINI

Não é da conta
Do sacro e tinhoso poeta
A dilatação destes devaneios.

Feito cloaca de galinha,
Os olhos expelem tudo
De uma vez só, sem dó,

Pois assim não dói quando sai
As virtudes e medos, e as quimeras.
Tudo passa pelo reflexo dos olhos

Estes cus da cara
De inversão escatológica
Da razão lírica e beatificada.

Malditos prazerosos da beleza
Sodomizados pelos dedos românticos e pelo amor,
Vaselina de lágrimas, portas dos pecados sem pregas.

Se mijam ou apenas choram,
Se cagam os cacos do cerne em verve
É o mote estético do estro que irá tentar dizer,

Tentar teimosamente fazer boa obra de arte
Ou apenas mais uma porra de esterco estético patético,
Ao qual, não abarca nenhum juízo de valor aos alheios.

Tecem-se os sentidos sentimentos
Nos cílios cintilantes de encantos e alegria.
Gozam os olhos o júbilo do ardor da vida devassada.

POESIA - ORTODOXIA - THIAGO LUCARINI

A boca que fala
É maldita.

As mãos que trabalham e doam
São santas.

O corpo que fala pelo falo
É maldito.

O corpo que responde à inocência
É santo.

Os pés que desviam da linha
São malditos.

Os pés que seguem a linearidade ao precipício
São santos.

Os olhos que veem e recusam
São malditos.

Os olhos cegos e condescendentes
São santos.

A vida que goza em alegria
É maldita.

A vida que se ergue em dor
É santa.

O pensar crítico
É maldito.

O pensar cabresto
É santo.

E tão-somente, mas tão-somente a morte
É santa e maldita.

POESIA - SONHOS DE MEDUSA SIMIESCA - THIAGO LUCARINI

A velha de rosto simiesco
Salpicada de resquícios da alva
Fumava ao sol inicial
Os sonhos de Medusa
Numa égide de palha e fumo.
 
A fumaça expelida
Pela boca desdentada
Ia transformando em pedra
Os pulmões da velha
E tudo ao derredor terminal.
 
As cinzas formavam
Poças douradas de icor sem cura.
O céu inalterável de a sua boca
Vincada e apertada refletia o brilho
Da guimba em brasa viva e enigmática.
 
Quando, enfim, terminou
O sol, o derredor, o pito.
A velha tornou-se bela pedra,
Uma abstração concreta do cotidiano.

POESIA - AS FRUTAS - THIAGO LUCARINI


O fim de tarde
Doura as frutas
Na velha fruteira.

Mesmo aquelas verdes
Ganham o rubor maduro,
Vermelhidão de 30 minutos,

Depois voltam ao estado
Verde, para a noite agir
Sobre as fibras e açúcares.

Quando a alva, enfim, romper
Todas as frutas estarão no ponto de doçura
E o novo entardecer será o êxtase do comum.

POESIA - INTERVENTOR POÉTICO - THIAGO LUCARINI

O poeta
Ergue
Da insipiência
Do concreto
Cotidiano
A moralidade
Do pensar
A estética
Abstrata
Das coisas
Desprezadas.
Faz o poeta
Flores de cristais
Quânticos,
Grãos
Oceânicos
Em sua possibilidade
De estrela fulgurante.
Traz vida,
À vida
Esquecida,
Mostra a impertinência
De se chegar ao alto
Da majestosa montanha,
Sem se ter percebido
As flores macias
Do velho caminho
Áspero.

POESIA - LIBERDADE DAS COISAS MÓRBIDAS - THIAGO LUCARINI

Meditava, irritado, sobre a textura física da vida.
George Orwell

Sobre todas
As coisas mórbidas

A liberdade das coisas
Já passadas da vida.

Sobre o monte de carne
Deitada e amanhecida

Enraíza-se uma flor de textura estranha,
A conformação dos últimos sentires.

Enfim, pousada a mente no nada,
No nada germina e se estabelece, e ali,

Conhece, de verdade, pela primeira vez,
A liberdade da condição humana tecida

Livre da aspereza, da dureza, da rugosidade,
Da lisura, da porosidade, da maciez, da liquidez.

POESIA - SE NÃO TIVER MORRIDO, NÃO COMPENSOU O ATRASO - THIAGO LUCARINI

Oito horas da manhã,
Trânsito parado, dentro
Do ônibus um estardalhaço.

Meu chefe não entendi,
vai fala que eu dormi tarde,
tava na farra, afinal, todo proleta é safado.”

Mulheres xingando, telefones tocando.
O fluxo metálico em lentidão infernal,
O asfalto coagulado de encapsuladas vidas inúteis.

É acidente na certa, e feio.”
Dez, buzina, vinte, buzina, trinta, quarenta, buzina.
Longos minutos de atraso, pressa, e um proleta grita:

Se não tiver morrido, não compensou o atraso.”
E não é que o ferido, por sorte, estava vivo, a tragédia
Fora um fiasco, não compensou mesmo o atraso.

29/09/2016.

POESIA - O LIMIAR DA PONTE - THIAGO LUCARINI

As mesmas águas
Que passam debaixo da ponte,
Passaram pelo limiar dos meus olhos

Cheias de influxos da alma.
Correram rumo ao mar
Foram ser vastidão plástica.

As mesmas águas
Que passam debaixo da ponte,
Passaram pelo limiar dos meus olhos

Após o mar, evaporaram,
Escureceram as nuvens brancas e diáfanas,
E outra vez, choveram repetindo o ciclo

Olhos
Ponte
Chuva.

POESIA - QUEIMADA - THIAGO LUCARINI

Fogo no cerrado
Lambe o seco mato.

O crepitar do fogo
É a derradeira canção de ninar

E a fumaça serpenteante
Diáfano lençol sufocante.

Queima o fogo
A juriti, o tatu,

O tamanduá, a pombinha,
As flores rasteiras,

Árvores inteiras,
Os insetos, o cupinzeiro.

Vai o fogo lambendo tudo
Com suas línguas calcinantes

Deixando para trás seu tapete
De cinzas retorcidas e frias,

De coloração apática e de morte.
Queimado, o cerrado espera águas de salvação. 

POESIA - MÃOS INCOMPETENTES - THIAGO LUCARINI

Os sentimentos
Espalhados pelo chão
São a razão
De o meu coração
Não estar em suas mãos.
Este pedestal de falhos dedos
Liso vidro de baixa aderência
Deixou-me cair por vezes demais.
Tuas mãos são incompetentes
Em gerir o bom amor. E eu
Fraco sem tanto ou medida
Colho sob prantos a dor
Dos espinhos do frio caminho.

POESIA - CHÁ - THIAGO LUCARINI

O chá disposto
Na branca xícara
Aquece o vermelho coração.

É infusão de emoções,
Todo o sentido guardado
Pelas folhas enigmáticas.

Xícara levada à boca
Chá de florescência na língua
Abre a primavera do paladar.

POESIA - ENGENHO - THIAGO LUCARINI

Aos pés
Do velho engenho
Um canavial
De verdes marés.

Este velho engenho
De pensamento e maldade
Cristaliza a dor das ogivas
Do sumo da cana submissa
Em doce açúcar sedutor.

Vai à fervura
O suor, o sangue e a garapa.
Juntos sãos os nutrientes
Para gerir o velho engenho
De alcoólicos sonhos ingênuos.

POESIA - LIZZIE - THIAGO LUCARINI

Chegada joia pequenina:
Menina, filha, neta,
Bisneta, sobrinha e amada.
Lizzie, a primeira flor deste jardim
Que tanto a esperou para florir sorrisos.

26/09/2016

*Poesia em homenagem a minha primeira sobrinha, filha da minha irmã.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

POESIA - MALDITOS POETAS - THIAGO LUCARINI

É culpa dos poetas
Se o gemido e a dor
Fornecem glória eterna.

O poeta desama, mas está feliz.
O poeta sangra, mas está feliz.
O poeta morre, mas está feliz.

Malditos poetas destarte
De suas artes vis. Não quero
O júbilo do sofrer. Que mal há

Na tranquilidade e no hino ao amor?
Malditos poetas deixem de lado a dor.
Ela não santifica do viver o ardor.

POESIA - OS CERCOS DOS QUINTAIS - THIAGO LUCARINI

Entre os cercos dos quintais
Influxo meu tímido jardim.

Dali olham para mim
Uma roseira, uma figueira,

Algumas margaridas amarelas,
Um jasmim, uma romãzeira,

E um parco coral de cores, coroas e corolas.
Há também alguns insetos preguiçosos,

E um pássaro despertador que canta
Para as flores floridas acordarem.

Há também ali um calçamento
Um tanto quebrado, mas útil.

Entre os cercos dos quintais
Um devir jardim dentro de mim.

POESIA - SUINEZ - THIAGO LUCARINI

De cabeça baixa
Óinc! Óinc!

Fuçando na lama
Óinc! Óinc!

Buscando à alma
Óinc! Óinc!

Algum consolo
Óinc! Óinc!

Para não ser
Óinc! Óinc!

Bacon ou torresmo.
Óinc! Óinc!

Porém a condição casta
Óinc! Óinc!

De cabeça baixa
Óinc! Óinc!

Já descarta
Óinc! Óinc!

A possibilidade de reverter
Óinc! Óinc!

Meu quadro permanente
Óinc! Óinc!

De suinez social.
Óinc! Óinc!

O sonho suíno
Óinc! Óinc!

Não é sair da lama
Óinc! Óinc!

Mas permanecer na chafurda
Óinc! Óinc!

À qual, a alma se criou.
Óinc! Óinc!

POESIA - DOMINGO DE MANHÃ - THIAGO LUCARINI

Há algo
Nós lençóis
Da cama

No domingo
De manhã.
Uma atração,

Uma força razão
Que não se explica.
Um certo centro

Gravitacional
Que não se aplica
Aos astros celestes.

Mas aos corpos terrenos
Sonolentos e preguiçosos
Que na cama permanecem.

POESIA - O POETA E O CACHORRO - THIAGO LUCARINI

O cachorro corre atrás da roda
O poeta corre atrás da poesia.

O cachorro para quando para a roda
Diferentemente, quando para o poeta, segue a poesia.

E que alegria é saber, que a poesia
Não se fixa à estagnação da carne,

Pela qual, ela generosamente passou.
Pobre poeta cachorro atrás dos giros

De sua roda. Roda esta que sem pestanejar
O atropelará para fazer-lhe um ícone imortal.

Falo eu de muitas coisas importantes
De muitas coisas inúteis, porém

A mais inútil das coisas que falo,
Sem sombra de dúvidas é o poeta.

POESIA - DE TODAS AS FLORES - THIAGO LUCARINI

O meu erro de amor barato
Foi vender-me à tua ilusão.

Taça de vinho ao alto
Fui enganado! Um brinde!

Prendi-me ao concreto falho
Não percebi os sinais abstratos:

Palavras frias, promessas vazias,
Uma casa estéril, nem bons-dias.

Meu erro de amor cobra seu preço amargo.
Teu corpo perfeito é fumaça situacional

E fixa-se ao fogo do momento propício.
Uma vez que, me apagou, dissolveu-se no ar.

Mas tirei teus cacos dos meus olhos,
Enfim, vejo-te, sorte não ser tarde demais.

De agora em diante de todas as flores
Que o corpo me oferece, só quero uma, a indiferença.

POESIA - SONATA DA SOLIDÃO - THIAGO LUCARINI

A cada nota da canção
O meu coração em partitura
Compõe suas loucas desventuras.

Em estilhaços de sonatas
Busca entre as melodias abstratas
Curar o vazio do silêncio estendido sob o sol.

Mas inutilmente sofreu facadas demais
Nas pautas iniciais, sangrou em claves
Perdendo suas elevações e nome. 

Meu coração não passa de uma canção ordinária,
Vagabundo para vagabundos bêbados. E morre sua harmonia
Definhando a sarjeta do emudecer, no erro do desafino.

POESIA - FALA BAIXINHO - THIAGO LUCARINI

Fala baixinho.
Pra que tanto grito?

Meus ouvidos sangram
Minha alma estilhaçada.

Deixe brotar o silêncio
Entre nós, para quem sabe,

Assim ter espaço para nascer
Outro algo além do estardalhaço

Destes berros. Tua boca estéril
É vidro, é pedra, é a faca que me cerra.

Silêncio, por favor, preciso reconhecer
O som do meu coração e diagnosticar

Nestes meus batimentos surdos se ainda
Há algo que teus gritos não mataram.

POESIA - CARNE MORDIDA - THIAGO LUCARINI

Cada fim do dia
Mastiga um pedaço
Da carne do que fomos.

E livres deste obsoleto
Pedaço falido abrimos
Caminho na derme para nova

Semeadura do eu de amanhã.
Vão-se os dias, os nacos de carne vencida,
Carne esta do pensamento e da alma,

Pois a do corpo fica, curtida
Em banho-maria pelas rugas do tempo.
Morde-nos os dentes dos ponteiros.

POESIA - BOCA - THIAGO LUCARINI

Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos

A boca que te maldizes
É a mesma boca que te chupa.

A boca que te escarnece
É a mesma boca que te come.

A boca que te diminui
É a mesma boca que por ti se consome.

A boca que de ti inventa falácias
É a mesma boca que em ti se cala

E calada freme e fende o lábio
Colada aos lábios do véu de tua boca.

É fato, a boca que não te confessa
É a boca que no beijo pertence-te.

POESIA - FAROL DE ILUSÃO - THIAGO LUCARINI

Não vá, amor!
Aquele farol é enganação.
Fique junto a mim.

Não apague nossa jornada,
Nosso caminho percorrido,
As flores que plantamos.

Sei que estamos no meio do temporal,
Mas certamente passaremos pelo mal.
Só não siga em diante, rumo ao farol,

Ali é penhasco, obstáculo ao nosso amor.
Está escuro, o mar revolto, sem lua
Seu coração não identifica as armadilhas.

Isso não é uma alegação de perfeição minha,
Pelo contrário, sei de todas as falhas e deslizes
Meus. Amor venha! Vamos achar a segurança

Dos nossos lençóis, a idolatria da nossa cama.
Vamos juntos achar a luz do domingo de manhã.
Só não siga em diante, rumo ao farol de ilusão.

POESIA - TODO O IMPOSSÍVEL DE UM SORRISO - THIAGO LUCARINI

Que saudades eu tenho de mim
Daquele tempo onde eu não era

Azedo poeta, de olho clínico à vida,
Saudades da infância onde eu era apenas

Uma criança de sinapses básicas
E pensamentos e condições elementares.

A vida adulta lambeu minha doçura, roubou-me o sorriso sincero,
Amargou minha ingenuidade, naufragou meus sonhos estelares.

Hoje, quando olho no espelho, vejo um velho distorcido,
Sem qualquer traço do passado além de o tempo passado.

Que saudades eu tenho de mim,
Que saudades eu tenho de mim.

Às vezes sonho, e volto às terras da minha primavera
E, ali, reconheço todo o impossível concreto que existiu num sorriso.