sexta-feira, 29 de abril de 2016

POESIA - ESTABELECENDO O OFÍCIO DA MORTE - THIAGO LUCARINI

Ó Morte és um lembrete perpétuo
De que a Vida vale à pena.
Então, homens roguem
Para que a Vida seja intensa
E a Morte serena.

Morte velha, sempiterna,
Antes de o homem adentrar o Éden
E institui-la pelo profano pecado
Já sopravas a chama das estrelas
Nos pórticos do manso Universo.

Em dependente e endêmico segredo
Sabemos que foste a primeira amante de Deus
E como presente lhe dado em sinal de bom grado
Deste rebento e santificado afeto divino
Recebeste o corte da vida dos filhos rebeldes do Criador.

Por isso, aonde pisas
Os pássaros encerram o canto
Os ventos se calam, a noite clareia,
O dia escurece, as flores murcham

E os homens descem em lágrimas à sepultura.

POESIA - O MORTO MENDIGO QUE FOI MORAR NA LUA - THIAGO LUCARINI

A morte é um lembrete perpétuo
De que a vida vale à pena.

Sobre o musgo da rocha dura
O corpo do terno morto,
Este nem esfriou nem endureceu

Sobre a rocha lodosa
O morto mendigo se vê numa mesa
Posta aos urubus soltos na natureza

Sobre a rocha escarpada
O morto não espera ter uma grande escapada
Apenas espera a noite derradeira para ver as estrelas.

Sobre a rocha descolorida da madrugada
O morto vê um alado cavalo também morto
Do seu lado pousar. O morto monta no cavalo enviado

Do alto o morto vê a rocha aonde fora posto,
Não vê urubus, e conclui o engano do pensamento
De grande fuga. O morto sortudo acha na morte

A sorte da liberdade que não teve em vida.
Voa o morto no cavalo alado para a lua

E dela faz Paraíso, uma morada só tua. 

POESIA - O FARDO DO MORTO - THIAGO LUCARINI

Daquele que está morto
O coração não bate.
Talvez, haja um resto
De ressonância da vida
Nos olhos fechados do corpo
A minar hialina lágrima,
Que eu não sei dizer
Se é lágrima de tristeza
Ou alegria em deixar
O fardo de toda uma vida

Nas costas de quem fica. 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

POESIA - MINIMA DE MALIS - THIAGO LUCARINI

A lua
No céu.

Lápis
E papel.

O beijo
Na boca.

Sexo
E amor.

Semente
Gerada.

Família
E fé.

Trabalho
E foco.

Deus
No coração.

Vida
Completa

Além
Da morte.

Minima

De malis. 

POESIA - O HOMEM E A MORTE, EU PLAGIANDO MANUEL BANDEIRA - THIAGO LUCARINI

— Tu és a morte? pergunta.

Lá de longe
Do norte sem sorte
Veio cheia de candura
A boa morte
Cumprir ofício com aqueles,
Que da vida se despedem.

— A morte sou!
Venho trazer-te descanso
Do viver que te humilhou.

Veio à morte aliviar o cansaço
Das costas dos que sofrem,
Pôr bálsamo nos pés calejados.
Ó quão santa samaritana ela é.

Pensava em ti com terror...

Ninguém cuida dos mortos
E dos homens mais que
A nobre morte marginal.
Dos vivos ela absorve toda a dor.

A fronte do homem tocou,
Com infinita doçura
Depois com o maior carinho
Os dois olhos ela cerrou.

A doce morte ao ir embora,
Comovida a porta do casebre fechou,
E fez brotar do chão
Uma rosa branca, um ídolo nascido

De amor pelo vivo que morto se tornou.

POEMA - CRIME E CASTIGO - THIAGO LUCARINI

És a minha fada!
Serei eu o teu fado?
Marcos Avelino Martins

Teceste no teu meigo sorriso
Um frágil véu de orvalho.
Eu, onírico e trágico fado
A turvar teu límpido riso.

Jurei amar-te sem causar-lhe pesar
Falhei. Que tolo sou em ser humano?
Você mística, linda junto ao profano
Sem querer querendo roubei seu vicejar.

Causaste no meu coração abalos tectônicos
Em retribuição dei-te meu hálito atômico
De descuido e negação. Sangrei teu coração.

Saibas, porém, amada feérica, etérea criatura
Que te ferir deu-me eterna chaga de amargura.

Crime e castigo. Beberei fel para reaver tua doçura.  

POESIA - ERA UMA VEZ DO POETA - THIAGO LUCARINI

Em água jaz
Minha paz
Pacífico sou.

De tinta sou.

Abissal
A lágrima
De sal no papel.

A reter o céu.

Oceânico
Poeta pateta
De equóreas estrelas.

Deita na areia.

Vê o oceano, a praia.
Poeta de pequenez,

Eternidade e era uma vez.

POESIA - PEIXE PULSANTE - THIAGO LUCARINI

Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito.
Manuel Bandeira

Meu coração
Despencou
Pela ribanceira
Da vida
Indo parar
Nos bolsões
Da curva
De um rio
E ficou por ali
Preso em suspensão
Ouvindo o ulular
Das águas cativas
Cheias de tristezas imensas.

Com o passar do tempo
Meu coração virou peixe
Imbricado no seio das águas
Trocou todos os sentimentos
Por bolhas leves.

Hoje, meu coração nada
Sozinho e colorido
Suspenso nos sonhos
Desta curva do rio

De celas sólidas.

POESIA - A MORTE DO TEMPO ETERNO - THIAGO LUCARINI

Feres na hora
Os minutos sagrados
Ao sacrificar o tempo
Com ócio de ofício inútil.

O tempo corta
A carne mais mole
De pouco caso com o acaso.

E ceifa na ceia da eternidade
Almas do seio da humanidade.

A hora ferida
Mortinha da Silva
É negra jocosa
Pois se torna
O espinho inesquecível
Para o resto da vida.

POESIA - RADIOGRAFIA - THIAGO LUCARINI

Havia algo
De estranho
Neste corpo.
Fui ao médico
Este prescreveu
Uma radiografia.
Chapa tirada
Viu-se todos
Os constituintes
E condutores
Que me fazem
Orgânico, mas
Tal foi o pânico
Do doutor
Ao constar que
O meu sentir
Não identificável,
Na verdade,
Era um bolo
Calcificado
De poesia
No coração
E o doutor disse:
“Vá em paz meu filho poético
para poesia calcificada no coração

não há solução senão escrever.”

POESIA - PROCURA - THIAGO LUCARINI

Da sorte
O sal.
Do mal
A cura.
Da rua
A procura
Sem rumo
Ou prumo.
Acho nas asas
Rápidas
De um sonho
As cores
E flores
Para preencher

O meu abandono.

POESIA - ÉGIDE DE PAPEL - THIAGO LUCARINI

Útero branco
Expele poesia.

O mesmo útero
No embalar do tempo

Vira tumba
E sepulta o verso.

A poesia
Nasce e morre

Na égide
De papel.

POESIA - ANDORINHA - THIAGO LUCARINI

Andorinha
Sozinha
Diz a canção
Que não podes
Fazer verão.

O quê podes
Fazer então?

Acho eu
Andorinha,
Que tenho
A solução.

Sozinha
E sem verão
Leve em suas asas
Bela poesia,
Pois esta
Não se importa
Com a solidão

Para ser criada.

POESIA - VELHO GOIANO - THIAGO LUCARINI

Velho goiano
Fechado no cerrado
Comedor de pequi
E do pé rachado
Olha para o mato
Da janela do seu quarto
Lembrando da vida caipira
De jogar milho
Para porcos e galinhas,
De lavrar a terra
Para fazer mais tarde
A colheita de alimentos e sonhos
E dar de comer a boca
E a alma dos seus filhos.
Velho goiano
Sertanejo do brejo e da serra
Senhor trabalhador
De poucas coisas,
Mas de eterno esplendor
E gigantesca fé.
Velho goiano sentado
Debaixo do ipê
Olha o horizonte
E vê o crepúsculo descer
E cerrar mais um dia
De santo trabalho

E vida cumprida!

POEMA - LUA DE SOMENOS - THIAGO LUCARINI

A lua chorou sem dar recados
Seus sonhos encapsulados.
Colérica, pauperizou seu brilho
Escurecendo-se um pouco a cada ciclo.

Suspensa e distante no firmamento
A lua reflete todo o seu cântico de lamentos
No oceano frágil e baixo escoando somenos.
Pobre astro satélite sem doce pertencimento.

Surda lua de rico argênteo halo nascente
Escute este poeta de voz evanescente:
Não existe no céu beleza mais sublime

Que a tua. Livre-se desta amargura de bile.
Deixe o sofrer comigo, seu amigo, seja plena

Sem pena de si mesma. Magnífica: brilhe!”

POESIA - COTAÇÃO DIÁRIA - THIAGO LUCARINI

— Viver, meu filho,
é a conjugação de um verbo
nos vários tempos de uma dor.
Gabriel Nascente

Tenho em minhas mãos
O saldo de uma vida.
Não é vida alheia
É rica vida minha.
Devo gastá-la
De acordo
Com o recesso
Ou sucesso
Da cotação diária
Para não ser arbitrário
Ou fazer da rica vida
Um trágico fracasso,
Um ridículo prefácio
Daquilo que poderia ser
Uma gloriosa história
De cintilante trajetória.
Tenho em minhas mãos
O saldo de uma vida
Uso-a com sabedoria,
Equilíbrio e harmonia
Para no final dos meus dias
O hausto saldo creditório

Findar-se satisfatório.

POESIA - PÁSSAROS SEM ALEGRIA - THIAGO LUCARINI

Pássaros que esqueceram como celebrar a alegria
Matsuri Hino

Todo canto silenciou
Afogou-se nas gargantas
O mundo ficou mudo
Quando os pássaros se calaram.
Ergueram-se os sepulcros
Os homens enlouqueceram
As flores murcharam
Os outros animais pularam do penhasco
Ou hibernaram para nunca mais acordarem
As estrelas caíram feito lágrimas
Rolaram pelo alto céu em melancolia perpétua.
Nenhum evento fora mais triste
Do que quando os pássaros esqueceram

Como celebrar a alegria dos dias vindouros.

sábado, 23 de abril de 2016

POESIA - FARELOS E FARRAPOS, SIGILO E SILÊNCIO - THIAGO LUCARINI



Todas as gotas
São partes
Do arco-íris.
Sônia Elizabeth

O quê fora eu
Além de um todo partido?
Configurei-me em cacos.
Saber do meu martírio
Não aplacou o suplício
De ser um pedaço quebrado.
Foi então, que num belo dia
Olhei para as coisas pequenas
Fragmentas das enormidades.
Vi as formigas trabalharem
Em sigilo e silêncio na labuta.
Vi o grão de areia queimar
Na sustentação do Universo
E brilhar sem se importar.
Vi das gotas de águas
Nascerem oceanos e arco-íris.
Vi a semente gerar gigantes
De copas frondosas e raízes fortes.
Vi de o poeta sair poemas
A povoar a imaginação do mundo.
No fim, vi minha vida espedaçada
Colar os farelos e farrapos de si
Refazendo-se, livrando-se
Das arestas, e entrando em festa
Ao perceber que toda pequena coisa
Faz-se milagrosa grande coisa
Dependendo do ângulo do olhar.

POESIA - CABIDE DE CARNE - THIAGO LUCARINI




O morto
Descido à cova
Livre do rigor mortis
Despi-se de sua carne
Expondo seus cabides
De ossos alvos, que tanto
Deram sustentação
A formação de quem
Este era.
O morto
Apodrecendo
Retira em definitivo
A roupa velha de toda a vida.
O morto
Enterrado
É um ovo choco
Pelado
Expondo a face
Da casca interna
Em sua casa eterna.