segunda-feira, 28 de março de 2016

POESIA - AONDE O LEÃO DEITA COROA ALGUMA POUSA - THIAGO LUCARINI

Uneasy lies the head that wears the crown
William Shakespeare

Deitado na relva
Da dura selva
O leão sabe
Que ele é senhor.
Na sua cova
Não há temor
Só o frescor
Da bravata
Diária e nata.
Ali jamais
Haverá usurpador
Ou potencias
Duas coroas.
O poder é seu
E único.
No seu trono
Alfombra de relva
Só tem um lugar.
Ele sabe da maior
Das verdades:
Aonde o leão deita
Coroa alguma pousa.
Para o rei leão atento,
Sua coroa está sempre
Á cabeça régia.

Sem descanso. 

POESIA - EMPÍRICO E ONÍRICO - THIAGO LUCARINI

A dura experiência
Sobre toda a ciência

Aceitação só do quê vem de mim
Sem teorizar qualquer algo

Ou significar sua existência
Pelas leis naturais de aplicação,

Estudo ou avaliação. Tudo é
Conjetura, hipótese e vivência.

Mesmo sem embasamento é real
Seus efeitos sobre o indivíduo empírico.

O ser do empirismo pode tender
A ir ao seu lado onírico, esta terra de sonhos

Para complementar sua razão-nata
Abandonando completamente os pilares

Científicos e teóricos. Este ser mágico

Empírico e onírico é a raiz do místico.

POESIA - CONTEXTO - THIAGO LUCARINI

Em qual contexto me encaixo?
Quais são as letras a margem de mim?

O quê está além da borda do eu?
Vivo dentro de um eixo em rotação

Tudo isso significa minha existência
Ou é apenas uma leitura una de alheios condensados?

Sou um ponto num mar de tinta num quadro
De Van Gogh; sobrenadando em somenos diários

Quem explica tudo àquilo que me influencia?
Meu contexto está além de quatro paredes?

Fora do amor? Fora do Universo? Aquém da vida?

Meu fadário está em contexto premeditado desde que nasci?

POESIA - DESFECHO - THIAGO LUCARINI

Abro
O fecho
Do vestido
O zíper
Desce.
Deslizo
O dedo
Sem roteiro
No trecho
De pele
Exposta.
Sôfrego
Estabeleço
Por inteiro
Nosso eixo
Certeiro.
O desfecho
Sem desleixo

A cama.

POESIA - ESPANTALHO - THIAGO LUCARINI

O corvo crocita
Pôr do sol
As sombras invadem
O fim do dia
Faz frio.
No meio do milharal
O espantalho desperta
Ao longe um corvo crocita
Seu arauto de mau agouro.
Silencioso, o espalhado,
Desce do seu pedestal
De cruz sem redenção
Um corpo vazio possuído.
O corvo crocita
Mas ninguém da atenção.
No final do outono
Os grãos estão maduros
Os frutos estão no ponto
O espantalho renovado
Segue para última messe
O corvo crocita.
O espantalho vai pela noite escura
Colher seus frutos humanos
Obter sua vermelha restituição.

O corvo crocita.

POESIA - PÁSSARO COLORIDO - THIAGO LUCARINI

Um pássaro colorido
De ominioso arauto
Chegou aos meus dias cinza.

Maldito pássaro colorido
A quebrar a hegemonia
Desta minha melancolia.

Trágico pássaro colorido
A pauperizar minha escuridão
Neste meu interior sertão.

Leve embora suas cores
Berrante pássaro colorido

Deixe-me sozinho no breu.

POESIA - LEGISTA - THIAGO LUCARINI

Quantos corpos eu vi em vida?
Quantos com horrendas feridas?
Quantos com a pele nata intacta?

Em quantos corpos eu fiz a abertura?
E em suas entranhas fui à procura
Da causa da morte sem lisura ou sutura?

Lesão por objeto perfurocortante,
Parada cardiorrespiratória, suicídio,
Morte natural. O fim sem condicional.

O quê me é a vida, se não um amontoado
De corpos em espera? O quê me será a morte,
Na qual, sou doutor, hoje. Serei um pássaro sem voo?

Outro corpo em espera na gaveta?
Uma alma sem ofício físico?

Um legista sem a legitimidade das leis dos mortos?  

POESIA - CORTE DO CORDÃO UMBILICAL - THIAGO LUCARINI

No mais senhores do universo Mundo:
Quem lhes urdiu a sedução malvada
Que os lançou em tão feia rebeldia?
Paraíso Perdido – John Milton

É o afastamento, e quebra da relação
Deus e Homem, que destrói
O condicionamento comportamental
De muitos destes seres terrenos.
O corte do cordão umbilical
Do Todo-Poderoso cria seres, por vezes,
Perversos, não fora assim com Lúcifer?
Essa alma longe dos olhos de Deus
Fruto da queda em rebeldia
Carrega fardos inconscientes
Culpas floridas em terras áridas
Que sugam a alma até o fim.
Esta falta de vínculo com a Glória
Desmorona horizontes, e gera atos
Insanos e corruptos na maioria
Dos desviados, não todos, é claro.
Não seria o próprio diabo
Uma entidade mimada cometendo
Travessuras para chamar a atenção
Do Pai, depois de se desmamar do Trono Celeste?
Os homens são, de fato, muito diferentes?
A ligação entre Céus e Terra
É uma ponte bilateral de sanidade.
Tá aí sua importância mesmo para aqueles

Que desconsideram sua existência.

POESIA - A ÚLTIMA REFEIÇÃO - THIAGO LUCARINI

Os vivos se reúnem
Em torno do banquete
Dado pela boa-morte.
No centro, o morto,
Sem expressão ou objeção.
O corpo fresco é comida pronta,
Porém fria e sem gosto, mesmo
Sendo temperado com lágrimas salgadas
As papilas gustativas da língua da cova
São pouco exigentes quanto a sabores.
Café, biscoitinhos, suco, água mineral
Os vivos se reabastecem sem miséria.
Igualmente a sepultura maquiavélica
Abre sua faminta bocarra
Esperando sua gentil parcela,
O morto, para mastigá-lo,
E abraçá-lo com seu estômago,
Para digeri-lo lentamente

Em toda a sua paciência.

POESIA - CHUVA DENTRO DA CABEÇA - THIAGO LUCARINI

O pensamento vai evaporando-se
Pelos poros do cérebro, subindo,
Fugindo das sinapses e padrões
De suas correntes elétricas.
O pensar em precipitação forma
Nuvens diáfanas, irregulares,
Brancas e esparsas juntando-se
Aos poucos em aglomerados fofos,
Engordando, inflando, amadurecendo
No interior da cabeça convexa, até
Chover toda a sua significação

Sobre as terras férteis do saber.

POESIA - FLAMAS DA DANAÇÃO - THIAGO LUCARINI


Essas chamas invisíveis,
Inexpugnáveis. Queimando
Com o oxigênio da alma
Ainda viva. São as piores,
Pois ferem e lambem
A carne existente e pulsante.
Este padecer em tormento
Na vida não deve ser menosprezado.
O Céu é muito mais um estado de Ser
Do que lugar para se Estar na pós-morte.
O verdadeiro problema do Inferno

É que ele nunca está Longe o suficiente.

POESIA - DIDÁTICA - THIAGO LUCARINI

Como ensinar?
O porquê ensinar?
Para quem ensinar?

A didática
É a prática. Uma
Escalada de etapas

Para se construir
O saber. Sem incorrer
Em erros banais.

A didática aplicada
Ordena a ação, e,
Aponta a direção

Social, possível problemática,
Sua potencial resolução,
E construção de relações

Entre o quê é preciso
Ensinar. E aquilo que é

Necessário aprender.

POESIA - MUNDO CIRCULAR - THIAGO LUCARINI

O mundo é uma roca
Girando, girando
Fiando vida
Fiando morte
Criando neutralidade
Girando, girando.

O mundo é uma roda
Girando, girando
Passando por cima
De pobres, ricos,
Santos e profanos,
E sem remorso continua
Girando, girando.

O mundo é cíclico
Girando, girando
Tudo sempre volta ao início

Girando, girando.

segunda-feira, 21 de março de 2016

POESIA - PROIBIDO - THIAGO LUCARINI

O cio
Proibido
E indecoroso
Mantêm de pé
O ciclo da vida.
É um vício
Do existir
Da sobrevivência
Não do homem.
O cio
É o silo
De fermentação
Da criação
E porque não

Do prazer.

POESIA - CONSISTÊNCIA - THIAGO LUCARINI

Gostaria de ter
Uma consistência mais dura
Feita de aço, mármore ou diamante
E não carne tenra, mole, frágil
Feita de sal, açúcares e giz.
Gostaria de ser inquebrável,
Inabalável, sentar e ver
A linha do horizonte
Pegar fogo e não temer.
Gostaria de ter ligas
Mais fortes a sustentar
Este coração, mas sou feito
De carne humana, barata,

E muito, mas muito sensível.

POESIA - RABECÃO - THIAGO LUCARINI

Cadáver banhado
Pelo homem vivo,
Devidamente preparado
Trajado e pousado
Entre as flores frias
Do seu caixão. O fruto
Do fim da vida
Está maduro e amargo
Pronto para sua comitiva.
Abrem-se as portas
Do rabecão, a gestação
Efêmera da morte
O guia pré-Caronte.
Sirene soa em arauto
O corpo segue
Em lenta procissão.
O cadáver chega
Ao velório. Fruto
De novas lágrimas.
Depois de chorado
Leva-se o morto
Velado para o seu carro.
O cortejo fúnebre
Vai para o cemitério
Parada final sem auriga
Se finda o último passeio.
O caixão pousa no chão
Definitivamente. Saí
O rabecão entra em cena
A gôndola e o condutor

Das águas do Estige. 

POESIA - O DESCASCAR DA LARANJA - THIAGO LUCARINI

Num fugaz e ingênuo paralelo
A sutileza de viver a vida
É como o descascar de uma laranja.

É preciso sopesar a força da mão
Ponderar a retirada da fina casca
Para que não restem traços de amargor.

É necessário cuidado para não ferir
A polpa macia. Ter equilíbrio para não
Ser superficial nem profundo demais.

Não se deve morder a laranja inteira
Correndo imprudente risco de queimar a boca
No sumo ácido. Para que tanta pressa no viver?

É essencial calcular com esperteza
Para se ter proveito total do doce fruto. Vida.
Siga cada um com sua prática de beneficiamento.

Laranja descascada. Vida vivida. Num consumo
Sábio se usa uma faca e o conhecimento, os quais,

Determinarão a qualidade final desta laranja-vida.

POESIA - ALGUÉM BATE A PORTA - THIAGO LUCARINI

Toc, toc, toc
Finalmente, depois
De muito e muito tempo
Alguém bate a porta
Do meu tímido coração.
Ele não sabe o que fazer
Se atende e abre a porta
Ou não. Do lado de dentro
Por um longo período
Permaneceu a solidão.
O coração preocupado pensa:
E se for o amor? E se eu deixar
Essa chance passar e outra não existir?”
Decidido, ele vai até a solidão, e diz:
É hora de seguir teu caminho.”
A solidão prontamente desaparece.
Depois de criar coragem
O meu coração abre sua porta.
Gratamente do outro lado
Enfim, estava o tão esperado:

Nada. No nada não se sofre.

PENSAMENTO - COMPARTILHAR AMOR - THIAGO LUCARINI

Grande parte do significado da Páscoa pode ser traduzido numa única palavrinha: COMPARTILHAR. Se a vida nos ensina alguma coisa, é que precisamos compartilhar para sermos de fato inteiros. Mas não queira compartilhar somente bens materiais e dinheiro (estes são necessários, porém não essenciais). Comece por doar: Você. Isso mesmo! VOCÊ!
Compartilhe Coragem precisamos ser bravos homens, mulheres e crianças no mundo atual, ter coragem para fazer o que é certo, e não o que me é cômodo. Compartilhe Sonhos vivos, coloridos, pulsantes, quanto mais pessoas sonham um sonho mais realidade este se torna. Compartilhe Amizade, estabeleça vínculos, cultive amigos. Compartilhe União façamos nós menos individualistas e solitários.
Compartilhe Sorrisos para alguém, uma eternidade de felicidade pode surgir em segundos do teu sorriso. Compartilhe Boa-vontade sirva ao seu próximo livre de qualquer amarra ou obrigação. APENAS FAÇA. Se entregue ao ato de fazer por querer fazer, e não pelo o quê vem depois. Compartilhe Boas Ideias. O mundo está em construção diária; e boas ideias espalham e formam o alicerce para estruturar os passos do futuro.
Compartilhe Gentilezas. Não seja um atirador de pedras. Distribua flores. Alguns dirão: “Com pedras constroem-se muralhas.” E sinceramente responda: “Com flores não se ergue nada, apenas o caminho fica mais bonito.” Compartilhe seus Medos, suas Fraquezas, seus Problemas, seus Defeitos, afinal, isto é compartilhar sua Humanidade de forma sincera, sem fantasias ou mentiras. Não há vergonha em ser este algo humano emocional. Compartilhe Humildade, não sejamos pequenos humildes, grandes orgulhosos e gigantescos egoístas.
Compartilhe seus Ouvidos e ouça verdadeiramente. Compartilhe seus Olhos vendo o melhor das pessoas. Compartilhe sua Boca dizendo sempre palavras de incentivo. Compartilhe suas Costas aliviando o fardo do teu irmão quando preciso. Compartilhe suas Mãos estendendo-as a quem está caído, machucado ou com fome. Compartilhe sua Fé em favor dos necessitados. Compartilhe Bons Sentimentos em favor de um mundo melhor. Compartilhe Educação em favor de todos nós. Compartilhe seu Coração em prol da mudança.
Compartilhe seu Tempo com aqueles que você ama, porém vá mais além, compartilhe seu Tempo com quem precisa de um pouco de atenção, com aqueles que são alheios a você. Compartilhe sua Solidariedade aos quatros ventos exercendo nisto o maior princípio de ser cristão. Faça da bondade e verdade seu espelho de conduta. E para fechar tenha sempre em mãos a pronta-entrega, o Amor e o Perdão, para compartilhar.

Deixo uma pergunta final: O quê você compartilhou hoje?

POESIA - VELHAS TEMPESTADES - THIAGO LUCARINI

Velhas tempestades
Se formam no horizonte
Curtidas no parco sol crepuscular
Estão maduras para despejar
Suas gotas grávidas de vida
Antiga e líquida, que corre
Para os braços da terra,
Amante ressequida da lida
De alimentar os homens.
Ventos fortes e seculares sopram
Primeira gota, cheiro de terra molhada
Inicia-se o balé de gotas mágicas.

POESIA - MEMÓRIA DOS BALÕES - THIAGO LUCARINI

Cordões
Presos a balões de hélio
Flutuam rumo ao infinito.
Assim é a memória
De um homem, presa
Ao seu cérebro. Algumas
Lembranças são coloridas,
Chamativas e convidativas.
Outros são balões negros
Alguns flutuam mais baixo
E outros tantos estouram
Sem qualquer chance
De conserto, indo parar
Debaixo do tapete
Do esquecimento indolor.

POESIA - LIBERTAÇÃO DO AMANHECER - THIAGO LUCARINI

E quando os sonhos viram realidade, eles fogem ao poder do sonhador e se tornam coisas mortais por si só, capazes de ação independente.
Stephen King

Um pedaço de sonho
Caiu no meu colo na noite escura
Feito a lâmina de uma faca galvanizada
Cortando minha quietude no pretume.
O sonho afiado cortou meus apêndices
Deixando-me sem arestas sem fretas
Sem contornos sem qualquer reentrância
Fez-me um sonhador liso, limpo, branco
E ausente da vida. Está faca cravada
No meu sono, faz sangrar coisas coloridas
Desta psique sonífera e apática, pertencente
As meias-noites, matando-me aos poucos
Em densas horas antes da libertação do amanhecer.

POESIA - CANOS ASSOMBRADOS - THIAGO LUCARINI

Velhos fantasmas
Moram dentro de canos
Mais velhos ainda.
Largaram o cemitério
Para sussurrar murmúrios
Enferrujados e agourentos
Para crianças travessas.
Os fantasmas do encanamento
Comem toda a podriqueira lamacenta
Chupando a gordura coagulada, rançosa,
E fedorenta, feito tutano de uma medula doentia.
Os canos retinem e vibram
Ecoando seu arauto assustador.
Os fantasmas estão esperando,
Esperando, esperando e esperando,
Crianças levadas dormirem
Enquanto, comem a escuridão do esgoto
Para, enfim, saírem do encanamento
E iniciarem sua litania infernal para pesadelos.
Para evitar sonhos ruins e fantasmas sibilantes
Tapem, crianças, os ralos, olhos negros do diabo,

E sejam muito, mas muito boazinhas.

POESIA - AFOGADOS - THIAGO LUCARINI

A descoberta do afogado
Deste novo mundo aquático
É delicada e calma.
O sol reflete na água alta
Seus cabelos de halo equóreo
Desenrolam-se em labirintos.
O afogado desconhece seu corpo
Nesta nova atuação em osmose
Onde tudo passa por ele.
Agora suas células inchadas
Sem qualquer trava
Dão acesso a tudo.
Não há mais barreiras
Fechaduras no corpo afogado,
Que se dissolvendo aos poucos

Logo será parte da imensidão.

POESIA - LIMBO - THIAGO LUCARINI

Essas paredes brancas
Cheias de falsas ranhuras
Como se dissesse com candura
Que tenho alguma chance de sair.
Essas paredes cheias de heras
Perdidas em eras, aquém
Do tempo, última paragem
Meus pés em eterna soldagem
Nesta barragem do nada
Neste recinto, o limbo, além
Das três esferas etéreas
Céu, inferno e terra.
Aqui só há o vazio e o pensamento
A pior combinação para uma alma

Destinada a pôr sua sanidade na eternidade.