segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

MINICONTO - O NEGRINHO DOS CHINELOS - THIAGO LUCARINI



 
Era o final do século XIX. No ano de 1890 o estado de Goiás passava por contundentes transformações desde o ingresso dos desbravadores paulistanos em 1749. O regime de escravatura brilhava nos céus da terra do pequi e do cerrado. Sussurro, nossa cidade, mística desbotava como uma flor fantasmagórica e exalante de jabuticabeira. Neste início de história goiana algo terrível aconteceu.
A fazenda Águas do Alto dominava a região de Sussurro com a plantação de café, dona da economia local. A propriedade vivia plenamente do trabalho dos escravos trazidos de outros estados entre eles negros africanos e indígenas nativos deste solo; entre este povo estava o órfão negrinho Nelson, um garoto de 12 anos, nascido na senzala, nascido para servir.
Nelson era um garoto bom, vivia de migalhas e trapos e trabalhava como gente grande derramando suor e sangue na lavoura. Seu sonho, sempre foi ter um par de chinelos ou sapatos para calçar os pés, para não se machucar, tanto, no chão pedregoso na colheita cotidiana do café.
Num belo dia um dos filhos do nhô esqueceu seus chinelos vindos da Europa aos pés da goiabeira, Nelson, os achou, mas ao invés de devolvê-los, os pegou para si, fascinado. O negrinho não o fez por mal, fez num ato impensado e involuntário.
 Logos após o sumiço do calçado começou por toda Águas do Alto uma caçada pelos chinelos do filho do patrão. Assustado com tamanho reboliço, Nelson escondeu o objeto furtado, mas o capataz José Aparecido, o achou nas coisas do negrinho, que implorou perdão dizendo que não fez aquilo de propósito, pois seu sonho sempre fora ter um puído para de chinelos.
Claro que não houve perdão. Nelson foi açoitado e deixando a míngua por três dias, quando finalmente morreu de dor e inanição. O espírito do negrinho estava finalmente livre, e por mais que tenha sofrido, não morreu com raiva ou ódio, era um garoto bondoso apesar de tudo e da triste morte.
Seu espírito ficou a vagar pela região de Sussurro e entorno. Logo um mito surgiu em torno do negrinho Nelson.
Sussurram por aí, que quem esquece os seus chinelos muito longe do seu quarto na hora de dormir, pela madrugada, escuta o riso e os chinelos andando sozinhos pela casa. Muitos afirmam ter visto o fantasma do negrinho brincando com os calçados alheios levando-os aos seus donos esquecidos, que tremem de medo e pavor a cada flap flap do bater do chinelos assombrados no assoalho.
 Finalmente Nelson tinha os chinelos, e tinha todos, pois já não havia mais correntes ou paredes que o impedisse.
O susto dos vivos, por vezes, o divertia, mas seu prazer, de fato, eram os chinelos, que nunca teve em vida.

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