sábado, 23 de janeiro de 2016

CONTO: JOÃO-DE-MILHO - THIAGO LUCARINI



 
Antes de se tornar um dos mais escabrosos mitos do Centro-Oeste e Sul brasileiro em meados da década de 1960, João-de-milho era apenas o homem, João de Alencar Sobrinho, no início da década de 1950.  Ele fora o diácono que ministrava aulas na escola dominical da igreja local, da cidade que aqui chamaremos de Sussurro, para se evitar curiosos. Fazendeiro rico e viúvo jovem (a morte de sua esposa é um mistério até hoje). João era um poderoso produtor de milho da região e até mesmo do estado de Goiás no auge dos seus áureos 30 anos.
Tudo seria lindo se fosse apenas isso. João fora acusado de violentar crianças da escolinha que gerenciava todos os domingos, o que gerou revolta. Durante uma armadilha que deu errado (de primeiro momento) em pleno domingo de manhã, João, saiu às pressas da Casa do Senhor após encher rapidamente sua Kombi bicolor com seus alunos. João de Alencar Sobrinho fora emboscado, de vez, em sua fazenda. Desesperado, ele correu para o milharal depois de matar a sangue frio usando um ancinho carcomido, 8 das 12 crianças em sua posse, sendo atingindo nas costas por tiros policiais. O homem morreu dentro da plantação.
A cidade ficou em paz por um tempo, porém coisas estranhas nas casas próximas aos milharais começaram a acontecer: baixa de temperatura, crianças gritando durante a noite, animais assustados durante o dia, cães e gatos olhando para o nada e assustados, mortes inexplicáveis e (sempre) movimentos estranhos nas lavouras de milho.
Crianças relataram nestas situações de pânico extremo ver um homem medonho, de cabeça globosa e cabelos ralos cobertos por um chapéu-coco marrom, encardido e rasgado; usando um terno azul puído cheio de palha de milho a mostrar um medonho peito côncavo como se houvesse sido nele escavado uma macabra meia-lua, pele de uma textura rugosa, quadriculada como se fosse composta de grãos; de uma tonalidade azulada, seu sorriso sempre aberto, envolto por lábios vermelhos de sangue. E os olhos, bem, não havia olhos, apenas dois caroços de pipocas estourados. Dependendo da versão, as órbitas são descritas apenas vazias feito um buraco negro. Conquanto, em comum, todos os relatos dizem que João-de-milho sempre carrega consigo numa mão uma boneca de milho cheia de símbolos bizarros e um ancinho velho na outra, com o qual, retalha e mata suas vítimas.  
No período de uma década todos os envolvidos no caso da morte de João de Alencar Sobrinho morreram em circunstâncias bizarras, adultos e crianças. A aparição pelas características peculiares passou a ser chamada de João-de-milho.
Com os anos decorridos, João-de-milho, se tornou uma lenda urbana, e não se sabe de onde surgiu uma conjuração para o espírito maligno dos milharais. Para trazer o fantasma é preciso ir a um milharal às 2 da manhã; fazer um pentagrama com milhos descascados e no centro da imagem pingar 8 gotas de sangue (o número provável de vítimas fatais em vida) animal ou humano, e recitar três vezes o dito maldito:
“João-de-milho, João-de-milho de eterno sorriso
“Venha àquele que o convoca em negras horas
“Homem-de-milho, homem-de-milho se apresente aos seus filhos.
Em outra versão do mito, João-de-milho, teria sido vítima de uma mulher rejeitada que o denunciou injustamente como forma de vingança por ser desprezada, e que ele nunca matou criança alguma. E que seu espírito é um ser de justiça aos injustiçados. Claro, que há quem diga que está versão é uma farsa implantada para que pessoas conjurem o monstro sobre si trazendo a morte a sua casa e família. Poucos sabem, mas quase todos os mitos sobre espantalhos assassinos surgiram a partir da lenda do João-de-milho.
Hoje há relatos concisos da atividade da criatura, João-de-milho, em todo o território nacional, além de países de toda a América Latina, em especial no México. Fica o alerta para os credos e para os céticos, afinal, a morte chega a todos.

POESIA - OVO PRIMITIVO - THIAGO LUCARINI



Tudo se resume
Ao ovo primitivo
No ninho barato
De Seu Augusto
De gosto duvidoso
Porém ser dos anjos.

O universo
É uma galinha
Poedeira de planetas
Ilusão e gemas-sóis
Suspensos em forte
Clara-Escura de
Sustentação pilar.

Cada vida original
Vem do ovo primitivo
O zigoto embrionário,
O grão de poeira
Envolto no útero de hélio.

Tudo e todos eclodem
Em pintos peremptórios
A ciscarem o quintal
Do tempo decisório
Até se vencer os ponteiros
O período de permanência
Neste galinheiro universal.

POESIA - DÉGRADÉ, TERROR TO LOVE - THIAGO LUCARINI



 
FOTO: Kirsty Mitchell
 
Não há para ilusões nova tinta.
Adriano Nunes

Ele pulsava triste
No terror do limite do inexistir
Para Ele, o fim, era certo até então.

No seu mundo grama era lodo
O arco-íris monocromático.
Tudo se apagava em escuridão.

Cores, frutos e pessoas
Morriam de desespero aguado
Tendo apenas bálsamo amargo.

Ele, não queria ser Ele,
Assim, tão impessoal e sem identidade
Ali na linha tênue entre vida e morte

Decidiu reformular seu mundo
Dégradé de terror e ilusão.
Tirou, primariamente, o tom fúnebre

Do sol sempre amanhecido e choroso
Com ajuda do deus Algamar, depois
Criou uma variedade de tintas coloridas.

No seu processo de criar e alegrar
Esqueceu-se daquele hórrido ofício de morrer.
Ele achou propósito ao cobrir-se de novos prismas.

Logo o seu mundo repleto de luz
E cores. Deu início a razão e ao amor
Ninguém lá morreu mais de terror

Reinou miraculosamente o amor.
Retirou-se a neblina do caos
E todos os desarranjos foram alinhados.

Por Ele, dégradé, hoje, se trata
Apenas de tons fortes de plena
E indelével felicidade sem farsas.

Só não sobraram mesmo tintas
Para a antiga e pálida ilusão
A morte que trate de achar suas flores.

POESIA - LÂMPADA (GESTAÇÃO DA LUZ) - THIAGO LUCARINI



[...] e a hialina lâmpada oca,
Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!)
Augusto dos Anjos

Hialina lâmpada oca
A carregar em seu ventre
O zigoto de luz com seus
Eletrodos e filamento
A ser brevemente alimentado
Pelo condutor de circuito
O fio elétrico-umbilical
Que abre a corrente
De energia vital
Quando o interruptor
É levantado com um clique
Na noite escura, assim
A barriga hialina brilha.

POESIA - DISPARIDADES DOS VERMES - THIAGO LUCARINI



Observo disparidades
Um ex-buquê de rosas vermelhas,
Hoje, secas e cinzas
Curvadas pela fatal gravidade
E seus vermes amanhecidos.

Vermes rastejam
Na linha dos olhos
Cavando buracos
Nas emoções raras e rasas.
Meu mundo é um mar
Sem canto de sereia
No lugar da areia, sal e cal
Misturados com terra de cemitério
E outros vermes substanciais.

Vermes seguem seu rastejar
Numa gleba funesta e implacável
Neste meu corpo apodrecido.
Sinto-os por toda parte.
Sob a pele
Atrás dos olhos
Debaixo da língua
Entre os dentes
Nas paredes dos intestinos
Subindo pelas pleuras dos pulmões
Alojando-se no coração e remodelando-o.
Só o cérebro escapa ileso,
Afinal, ele tem seus próprios
Vermes-pensamentos.

Os vermes não me incomodam.
Sendo comida sou útil em vida
A algo além de mim.
E eles, os vermes, me fazem
Ver disparidades que antes eu não via
Fazendo-me enxergar a mortalidade
Minha, sob um aspecto mais humano
E muito menos artificial.