quarta-feira, 30 de setembro de 2015

SONETO - MÃO DE DEUS - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Santificado seja o místico pólen de ouro
Abelhas e outros insetos levam a continuidade
Das espécies; são igualmente pais de civilidade
Operam a flor com patas precisas sem agouro.

Os insetos tecem e interligam as flores
Numa rede de bater de asas e jornadas
A vida cresce do pequeno levada em jangadas
Pelos minúsculos que depositam nas pétalas seus amores.

A flor fecundada frutifica e alimenta a selva
Graças ao ato da singularidade da relva.
Será que eles têm orgulho do trabalho?

Pois são consortes, parteiros, amantes
Mão da criação. São efêmeros, mas não abdicantes

Do dever dado feito no seio de poucas horas.

POESIA - VERMELHO - THIAGO LUCARINI

Vermelho é o sangue
Vermelho é a vida
Vermelho é a criatura
Saída do útero milagreiro.
Vermelho é a sedução
Vermelho é o pecado da maçã
Vermelho é o amor
Vermelho é o cosmo em expansão
Vermelho é a terra que cobre
O rosto do morto pálido.
Vermelho é a síntese de tudo,
Note que red, rojo, rouge, rosso, rot
Não têm a graça e força.
Estético é o vermelho,
Vermelho é a cor que estabelece
As ligações de ordens tantas

Santas e profanas.

POESIA - PECADO DA CONSUMAÇÃO - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Abra-te flor e serás
Condenada em pecado por aquilo
Que nasceste para fazer: florescer.
Fecunde-se flor, dê frutos
E teus frutos te farão pagar
Pois para vivificá-los terás
Que alimentá-los com o leite
De sua alma perfumada e jovial.
Permaneça bela flor, intocável

Ao pecado da consumação.

POESIA - TEMPOS - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Um tempo em suspensão: a dor
Um tempo estático: o relógio quebrado
Um tempo estético: você
Um tempo errante: eu
Um tempo congelado:
A dor do relógio quebrado

Sem poder afetar eu e você.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

POESÍA - AMOR ESPAÑOL - THIAGO LUCARINI

Un día llegaste en mi ventana
Miraste en mis ojos
Y amaste me como se fuera
La última cosa del destino,
Cambiaste todo sen permiso
Apagando los males de mi corazón.
Hoy te digo: segué sus sueños
Hasta mi boca, cama y vida.
Juntos olvidaremos del mundo
Quedaremos en una eternidad frágil
Porque contigo quiero estar
Viviéramos como el vuelo de una mariposa
Como la luz de la luna llena
Como el fuego de los amantes
Tú y yo quedaremos eternos
Seremos aire y tiempo

El brillo verdadero de las estrellas.

POESIA - HÁ UM PEDAÇO DE MIM - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Há um pedaço de mim
De mim há um pedaço
Jogado pelos ralos da sarjeta.

Há um pedaço de mim
De mim há um pedaço
Vago e raso sobre o queijo mofado.

Há um pedaço de mim
De mim há um pedaço
Maltrapilho sobre o pão duro.

Há um pedaço de mim
De mim há um pedaço
Afogado num copo de cerveja aguada.

Há um pedaço de mim
De mim há um pedaço
Num coração em cárcere privado.

Há um pedaço de mim
De mim há um pedaço
Eternamente pertencente ao seu domínio.

Há um pedaço de mim
De mim há um pedaço
Pedacinho despedaçado de infinito.


POESIA - NOTURNO - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

O homem noturno
Depende da noite
Como os pulmões
Necessitam do ar.
Noturnamente falando
O homem através da noite
Compõe estrelas radiantes
Bebe o licor que escorre
Das paredes do firmamento
Até que os pilares de sustentação
Da noite e da poesia
Comecem a alvejar.
O noturno abdica-se do sono
Escuro para conceber
Luz própria, não duvide que
Ele é estrela no breu criativo.
O homem noturno prefere
Os sonhos iluminados do dia
Pois estes o recarregam
Com nova luminescência
Este homem noturno
É um vaga-lume
No quarto da noite

De sonhos despertos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

POESIA - TEORIA DO LÁPIS - THIAGO LUCARINI

O movimento do Caos é
Diretamente e inversamente
Proporcional ao movimento
Da Ordem equilibrista.
O Caos tem por função
Desarranjar a linearidade
Do tempo e espaço
Para a Ordem reestruturar.
Sendo assim, o universo
Um grande rascunho
Constantemente
Apagado e refeito.
Como num lápis
O Caos é a borracha
Numa extremidade
A Ordem é o carvão
Na ponta oposta.
Se por algum motivo
Aleatório e incompreendido
A borracha e o carvão
Acabarem se encontrando
Por neutralidade de ações
Estará então criado

O Nada absoluto.

POESIA - O HOMEM QUE BANHA O MORTO - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

O que pensa o homem que banha o morto?
O que pensa o morto que é banhado pelo homem?
Que segredos trocam? Que palavras compartilham?

Precisa o morto de tamanha vaidade?
Ser limpo e vestido com tamanha elegância?
(Será tudo isso coisa do homem, do morto

Ou pura exigência da fria sepultura?!)
Sepultura esta que só guarda em teu útero estéril
Coisas limpas e bem vestidas, afinal, dela

Não nasce nada, nem morto nem alma.
Não importa a razão final das coisas
Tudo é cíclico, hoje, o vivo homem

Banha o morto do momento, daqui a pouco
Será outro morto, depois o homem que banha

Será o próprio morto e outro homem o banhará. 

POESIA - ISONOMIA E ISOTONIA - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Igualdade de regência aos integrantes
De um todo em comum é utopia?
Será possível alcançar o uso da lei
De forma igualitária a todos
Os componentes de uma sociedade?
Onde o poder aquisitivo e político
Não fale mais alto que a Justiça?
Pois na maioria das vezes
Parecemos líquidos distintos
No copo de cristal isonômico.
Alguns são petróleo, sujo, raro e caro
Outros são água, essencial, mas
Pouco valorizados e de fácil manipulação.
E por fim, a maior parcela
Trata-se de mijo azedo, descartável.
Além dos solutos estruturais de cada um
Será realidade isotonia entre

Essas soluções sem solução?

SONETO - PECADO - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Pecado poeira na alma carmática
Que vai engrossando com o tempo
E se do alto cai chuva faz-se cimento
Numa mistura de água santa e poeira axiomática.

O corpo junta pó os olhos o lavam em ofício
Com o toque do Céu indulgente
Ascendência, descendência, detergente
Final é a oração em livramento do precipício.

Flagelo da alma em pecado: sofrimento
O caminho se distorce num cíclico lamento.
É pedido ao Alto: “Piedade Senhor, Piedade”.

O fardo curva as costas, quebra os ossos, condenação
Sem qualquer tipo de estética ao pecador, salvação
Último alento e bálsamo: “Piedade Senhor, Piedade”.











POESIA - CAMINHO - THIAGO LUCARINI

 
FOTO: Thiago Lucarini

Meu caminho nunca foi linear
Ele dá voltas, sobe montanhas
Passa sobre pontes, desertos
Vales, ora burro segue em círculos
Faz um rabisco de caminhada
Vai e volta, volta e vai
Quando percebo estou enrolado
Num emaranhado de passos dados
Numa teia construída com os pés
E é este arranjo de irregularidade
Que me faz crescer e dar o próximo
Passo ao desconhecido.
Definitivamente eu não suportaria a
Regularidade tediosa
De um caminho perfeito.

POESIA - XÍCARA DE CAFÉ ORÁCULO - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Seis da manhã
Eu olhando uma xícara de café
Sobre a mesa sonolenta
E pergunto a ela onde está você.
A fumaça displicente
Sobe sem dar resposta
O aroma somente se preocupa
Em impregnar o ar sem cheiro
Permanecendo igualmente silencioso.
O líquido mudo pouco responde
Não cede um único vislumbre.
A xícara branca junto a bebida
Formam um universo distinto
Sobre a mesa, meu olhar lhe pertence,
Um sol pálido de pestanas.
Amada a espero num vestígio de futuro
Meu Delfos particular e solitário
Que com um beijo quente
Não me revela nada, mas apesar
De ser oráculo falho
Aquece minha alma em goles
Por enquanto, deixo o futuro
A cargo do próximo minuto.













sexta-feira, 25 de setembro de 2015

POESIA - COSTURA - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

O tempo costura com linha invisível
De horas plásticas apertadas, unindo
Os tecidos da vida, num eterno
Trabalho de fazer e desmanchar.
Sua rotina nunca encontra findo,
O que costurou durante o dia
A noite desfaz em sonhos novos.
A bainha da roupa tecida
Nunca tocará o chão, até que
O corpo de uso em questão
Seja pousado ou cosido ao solo
Pelo ponto de arremate da morte.

POESIA - PALAVRA IMORTAL - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Cada palavra tem seu tempo
E tem sua parcela fora do tempo.
Apesar de quando em desuso
Ser esquecida ou de não ter
A urgência do emprego quando
Desconhecidas, bênção divina
Nenhuma palavra morre de fato
Apenas se enterra no dicionário
Caixão de palavras, mas que
Não é portal para outro plano,
Pois as palavras só podem
Estar em dois mundos

Língua ou papel.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

POESIA - POETA ESTÁTUA - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Gosto de estar parado
Não no sentido literal
Mas observando a vida
Que se abre ante a mim
De graça, sem cortina e bela
Expondo sua graça
De teatro fresco e livre.
Fico estático,
Esqueço de falar
De pensar
Sem léxico ou semântico.
Me perco no observar
Traduzindo o vulgar
Em poesia mais vulgar
Pois neste instante
Não há padrões e concordância
Só sentimento imortalizado.
Fico assim quietinho
Sendo mais árvore que gente
Mais poste que pessoa
Mais estátua que humano.
Corpo imóvel
Olhos de pedra na vida

E nos seus desenrolares.

POESIA - FORMIGAS CORREIÇÃO - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Formigas que seguem
A vida em trabalho
Sem nunca parar,
Fila indiana
Correição
Um rio saúva
Tanajura
Ou lava-pé
Sob sol quente
Ignoram a beleza
A sua volta
Carregando vida
Carregando algo
Que as alimente.
Talvez tenham
As formigas
Mais fome
Que qualquer
Outra coisa.
Humildes nunca
Levantam a cabeça
Mais que o necessário
Mesmo quando o sol
É bloqueado por um pé
Calçado de crueldade.
Formigas trabalhadoras
Em fila indiana
Sem hora extra
Quero um dia
Seguir a vida
Casto e religioso

Como vos.

PENSAMENTO - O NOVO ALUNO - THIAGO LUCARINI

O Ensino atual
É entulhado de todos os lados
Mas hoje falemos dos alunos.
Estes taxam a escola como lixo
Como um lugar de zombaria
Um circo das liberações imorais,
Onde o professor é o palhaço.
Muitas vezes o desrespeito
É monumental, os alunos
Vestem-se de um equivocado
Direto de arrogância
E falta de senso, que atinge
Limites estratosféricos.
O novo aluno é um antenado
E um idiota por escolha,
Uma distorção variante
Sem reflexo. Não vêm
Nem identificam a escola
Como meio de salvação
Mas de utópica condenação.
São ignorantes no maior
Sentido da palavra e
Definham suas mentes
Ao limitar-se ao vulgar
E ao pensamento de
“Não há conserto”.
A insensibilidade desenvolvida
Pelo Saber é apocalíptica
Mal percebem a tragédia
O ciclo destrutivo que desenham
Com suas próprias mãos
Sem o uso de lápis e caneta.
Só verão o panorama
Quando o leão do circo
Os devorar e seus restos
For alimento insosso

Ao picadeiro dos horrores.

POESIA - ESTIGMA DA BELEZA - THIAGO LUCARINI

A nuvem
A pluma
O pássaro
A bailarina
Dividem
Entre si
O estigma
Da leveza.
A capacidade
De se moldarem
Ao canto
Antigravidade
Do vento.
Têm apenas
Uma vaga
Lembrança
De pertencimento
Ao solo
Pois o ar
É aonde habitam
De fato.
Tenham asas

Ou não.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

POESIA - O CANTO DAS PEDRAS - THIAGO LUCARINI

A pedra é inquieta
Nunca está no mesmo lugar
Apesar de sua imobilidade.
Afinal, alguém é capaz
De medir os sonhos de uma pedra?
Suas vibrações
Seu canto refratário?
As pedras cantam!
Não há dúvida.
Quando ouvir o silvo
Pare e escute
Não se abaixe
Permaneça altivo
Pois o canto virá direto
A cabeça do ouvinte
E é um canto dolorido
De curtos segundos
Mas lembrando por dias
Tingidos de roxo.

POESIA - PSICOPATIA CONTROLE NATURAL - THIAGO LUCARINI

E se o psicopata for um
Agente de controle natural?
Terá ele culpa da messe que faz?
Se seu cérebro fora programado
Desde o útero por algo indomável.
As vítimas não estariam
Escaladas numa seleção
Igualmente natural?
Todavia de difícil aceitação.
Desde o incompreendido início
De todas as coisas, temos a fome
A seca, a praga e a peste
Não seria a insensibilidade
Mortífera da psicopatia
Um deflagrador biológico
Que se iguale em propósito
Aos meios anteriores
Todos completamente impassíveis.
Sorte que os agentes de controle
Por mais difícil que sejam

Podem ser dominados ou eliminados.  

terça-feira, 22 de setembro de 2015

SONETO - DILÚVIO - THIAGO LUCARINI

FOTO: Thiago Lucarini

Olhe para o horizonte e veja
O manto de água que vem caindo
Dando ao mundo livramento da sede labirinto
Talvez, iludidamente como a chuva eu seja.

Só que caio sempre do mesmo ponto
Sem dissolução quando estou em dilúvio
Despenco inteiro do céu formando deflúvio
Não me faço em poças, duro chego feito confronto.

Quando meu dilúvio encontra a tempestade natural
Nos fundimos, conjunção de híbridos e atemporal
Pois chovemos em castigos ou milagres

Em qualquer estação, além de 40 dias e 40 noites, além de vãs ações
Somos dilúvio mesmo sem água, antígenos raros as precipitações

Fazemos a ligação entre Céu e terra, homens e nuvens. 

POESIA - CÂNTICO - THIAGO LUCARINI

Primeiro existiu o silêncio
Depois veio o Criador
E sua voz:
“E fez-se...”
Nasceu aí o primeiro canto
De toda a criação, desde então
As águas sussurram
O fogo crepita
As folhas ciciam
Os animais têm seu falar próprio
E os homens têm seu hino
Um cântico novo a cada dia
Cântico do nascer ao morrer
Voltando ao silêncio universal

Só no derradeiro fechar dos olhos.